Olá, pessoal!

Ficamos um tempo sem escrever neste blog, mas retornamos agora em fevereiro e tentaremos dar atenção aos posts com maior regularidade.

Para marcarmos o nosso retorno, gostaríamos de iniciar uma série com dicas de documentações importantes para a história do tempo presente que são possíveis de encontrar na internet. Postaremos links e daremos uma “palhinha” do que os acervos ou documentos têm a oferecer.

Particularmente, penso que acervos digitalizados oficialmente e fotografias de documentos jogadas na internet facilitam muito a vida do pesquisador. Oficiais ou não, os documentos virtuais têm me auxiliado muito na pesquisa que desenvolvo para a dissertação de mestrado. Se não fossem as possibilidades do digital, ficaria devendo descobertas e pistas importantes. Por ora, quero falar de um “acervo” publicado no Picasa bem interessante. São documentos fotografados por um pesquisador chamado Benjamin Cowan.

Cowan é Professor Assistente de História da América Latina na Dalhouse University, no Canadá, e publicou o artigo Sex and the Security State: Gender, Sexuality, and ‘Subversion’ at Brazil’s Escola Superior de Guerra, 1964-1985 em 2007. Para tanto, pesquisou em diversos acervos com documentação sobre os militares. Cowan fotografou muitos documentos e publicou-os no Picasa, divididos em 53 álbuns. Há muitos documentos sobre a Escola Superior de Guerra (ESG), a seção do Rio de Janeiro da Associação de Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), pedaços de revistas como a Ação Democrática, A Defesa Nacional, Revista Militar Brasileira, material sobre guerra revolucionária, manuais do Exército, documentos sobre o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPÊS), dentre outros. É importante enfatizar que o pesquisador fotografou o que considerava importante para seu trabalho, portanto muitas séries estão incompletas, o que não diminui seu valor e a importância de conhecer um pouco mais sobre tais documentos. Destacaremos alguns abaixo.

Segurança Nacional e Subversão (Dicionário Teórico e Prático): documento reservado da Secretaria de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro, datado de 1977, trata-se de um dicionário sobre subversão dedicado a instrumentalizar a polícia política para suas ações contra a subversão. Segundo o documento, nele serão encontrados verbetes relacionados à “segurança nacional, informações, operações, partidos e organizações, técnicas e táticas comunistas, movimento comunista internacional, conceitos marxistas-leninistas, doutrina da ESG, gírias da subversão, noções de segurança física de dignitários, legislação relacionada com a segurança nacional, crimes contra a segurança nacional, etc. etc.”. O material, portanto, foi utilizado para instrumentalizar a ação dos agentes. LINK

Revista Ação Democrática: publicação oficial mensal do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), órgão criado em 1959 e que atuava junto ao IPÊS (René Armand Dreifuss os referenciava como o “complexo IPÊS/IBAD”) na campanha de desestabilização do governo João Goulart nos anos 1960. Há artigos interessantes sobre os estudantes, os chamados “inocentes úteis”, e também um suplemento da revista, assinado por Ivan Hasslocher, diretor do IBAD, chamado “As Classe Produtoras Diante do Comunismo”. Não está completo. Há também uma listagem de empresas que estariam financiando a UNE, e, portanto, o comunismo. Enfim, pra quem estuda anticomunismo é um prato cheio. Há fotografia com a referência das caixas e do fundo ao qual os documentos pertencem. LINK

Ação Educativa contra a Guerra Revolucionária: documento produzido pelo Estado-Maior do Exército e encontrado na biblioteca da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Trata-se de um curso realizado em 1963, antes do golpe de 1964. Não está completo, mas é possível ler trechos de várias das conferências que compunham o curso. LINK

Boletim da Liga de Defesa Nacional: a Liga de Defesa Nacional existe até hoje, com várias representações regionais no Brasil, e foi criada em 1916 por Olavo Bilac. Anticomunista no pré-golpe, produzia um boletim com diversos artigos bem interessantes sobre o contexto político da época. É possível ler alguns fragmentos neste álbum, inclusive do boletim da imagem ao lado, de abril de 1964. LINK

Há muitos outros documentos nestes álbuns, e vale a pena dar uma boa olhada. A ESG e a ADESG, para apenas dois exemplos de instituições golpistas do pré-64, existem até hoje e continuam realizando seus cursos. Portanto, é importante, para compreendermos a atuação destas instituições civil-militares no presente, investigar suas ações no passado. Puxando para o lado do Rio Grande do Sul, sua seção da ADESG não permite que sejam consultados seus relatórios de atividades dos anos 1960, apenas as monografias produzidas por seus alunos através de solicitação prévia. Digo por experiência própria, pois tentei consultar a sede da instituição em Porto Alegre, cujo endereço (clique aqui para acessar o mapa) é Rua dos Andradas, prédio do Rua da Praia Shopping, n. 1001, conj. 1203. Quem não deve não teme…mas isso é assunto para aprofundar em outro post.

Espero que aproveitem!

Sex and the Security State: Gender, Sexuality, and ‘Subversion’ at Brazil’s Escola Superior de Guerra, 1964-1985
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Como escrever em uma realidade em que todos escrevem sobre tudo?

Como dizer que talvez o que eu escrevo seja de alguma forma mais relevante do que alguém que escreve sobre esmaltes?

"Você me apagaria?" - Cartaz do filme

Vendo hoje algo completamente irrelevante dentro do âmbito historiográfico (que é, antes de mais nada, o enfoque principalproposto pelo blog), me deparei com algo que vem me incomodando já há algum tempo. Não só vivemos numa realidade tomadapor informações e opiniões, não é só o simples fato de falar e comunicar, é ainda, e principalmente, o fato de que nada se retém, nada permanece na memória. Assistindo “The Eternal Sunshine of the Spotless Mind” (filme que irão me dizer não ser tão interessante por não ser um blockbuster ou um filme do Tim Burton), voltei a ficar inquieta com o fato de que vivemos em uma época em que é preferível esquecer de qualquer forma possível uma lembrança ruim do que conviver com ela.

Em termos historiográficos, principalmente na história do nosso país, isso não é apenas um acontecimento, é uma regra. Devido ao conteúdo do site e principalmente a eventos recentes, acho que dou a impressão de que irei comentar algo sobre Eros Grau e a decisão do STF de não revisar a Lei da Anistia. No entanto, não irei tratar desses pontos agora. Irei tratar de algo que ultimamente incomoda os acadêmicos de História. Irei pensar abstratamente sobre o fato de escolhermos, vejam bem, escolhermos deliberadamente esquecer alguma coisa.

Para não esquecer minha queda pela historiografia marxista, Marc Bloch pensou em uma ciência histórica que se tornasse a “ciência do homem”, que estudasse em todas as formas possíveis o homem e seu tempo. Para não negar os benefícios trazidos pela Nova História e as grandes contribuições trazidas por Fernand Braudel em sua longa duração, Marx foi um dos primeiros a afirmar que os modos de produção nos quais as pessoas se inserem determina as suas formas de pensamento. As idéias não são desprendidas da realidade, é a realidade que forma as idéias. No entanto, de alguma forma, passamos da proposta da ciência do homem para a microhistória, Marx é entendido ainda hoje como determinista e a longa duração parece não resistir às mudanças da era dos extremos. Hoje, não apenas socialmente, somos forçados a escolher uma “caixa”: marxista, cultural, gênero, econômica, artística ou política. E ao escolhermos uma das caixas devemos esquecer as outras, a fim de produzir um conhecimento suficientemente válido dentro da caixa escolhida. Mesmo sabendo que Marx não foi um marxista, que estamos assassinando os preceitos de Bloch e que a longa duração não conta somente para a geografia do Mediterrâneo, nós, historiadores e cidadãos comuns, escolhemos uma caixa e esquecemos o resto.

Ministro do STF Eros Grau (Fonte: Roberto Stucker Filho/O Globo - via site Politica Livre)

A inquietação não é só histórica, mas também filosófica e moral. O que fazer quando não queremos mais esquecer? Bem, de acordo com o STF, se uma decisão foi tomada em um determinado período histórico, em um determinado momento da vida dos participantes, essa escolha não deve ser mudada, pois a escolha pertence àquele passado. Entretanto, como encontrar paz e conforto dentro das mentes que não tomaram uma decisão tão consciente? A nação, tecnicamente, toma decisões de acordo com as vontades de seu povo. Mas como entender essa decisão como válida se, ao mesmo tempo, sabemos que essa mesma nação foi uma construção histórica e que suas decisões apenas dizem respeito às vontades e aos sentimentos de um grupo muito específico de nossa sociedade, casualmente o mesmo grupo que ainda está no poder?

Este texto não busca respostas. Busca apenas uma inquietação que não deve ser solitária. No momento em que percebemos que vivemos de maneira conivente com uma realidade que não deveria se manter a mesma as perguntas se tornam tormentos quase eternos. Apesar de nossa especialidade ser de problematizar o passado, para mantê-lo de alguma forma vivo, podemos sempre escolher o caminho inverso e esquecer, como mecanicamente faz nossa sociedade.

Retiro-me do texto com uma citação de Guy Debord, buscando mais uma vez o questionamento ao invés da resposta acabada:

“Esta democracia tão perfeita fabrica seu inconcebível inimigo, o terrorismo. De fato, ela prefere ser julgada a partir de seus inimigos e não a partir de seus resultados. A história do terrorismo foi escrita pelo Estado; logo é educativa. As populações espectadoras não podem saber tudo a respeito do terrorismo, mas podem saber o suficiente para ficar convencidas de que, em relação a esse terrorismo, tudo mais deve lhes parecer aceitável, ou, no mínimo mais racional e mais democrático.”[1]


[1] DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. p. 185. (Grifo no original)

Descobri recentemente que será lançado em breve um documentário chamado “Reparação”, dirigido por Daniel Moreno, cineasta formado pela USP e que conta a vida de Orlando Vecchio Filho. Seria mais um documentário normal sobre um drama pessoal, não fosse a história intimamente imbricada com questões espinhosas do Brasil contemporâneo, e que pode ter forte influência no processo eleitoral de outubro de 2010.

Orlando Vecchio Filho perdeu uma das pernas em uma ação da esquerda armada em 1968, em função de uma bomba na biblioteca do consulado estadunidense em São Paulo. Não estava envolvido em disputas políticas, mas sofreu as consequências de uma delas. Conseguiu uma indenização pequena em função do mal que sofreu. No entanto, o que recebe mensalmente é muito menor do que o que recebe um perseguido político. O fio condutor do filme é a história de Orlando contada por ele mesmo. No entanto, pelo que pude ver no trailer, a história de Orlando é apenas um pretexto pra discutir questões mais amplas.

Aqui vai o trailer do filme, que comentaremos logo abaixo:

Embora o título do documentário seja “Reparação”, penso que a questão mais importante está em uma fala de Marco Antonio Villa que é o fio condutor de toda a argumentação do filme. Aos 43 segundos do trailer, Villa diz: “A esquerda era golpista, assim como a direita.” A partir disso, tanto o posicionamento político do filme como os discursos que ele compra ficam mais claros. Cabe esclarecer, no entanto, algumas questões de historiografia. Marco Antonio Villa é um historiador que argumenta que as esquerdas do pré-64 eram golpistas e poderiam dar um golpe de Estado e instalar uma ditadura. Seguindo esta lógica, o golpe civil-militar de 1964 foi um contragolpe, um golpe preventivo, que evitou que se instalasse uma ditadura de esquerda no país. Desta forma, os militares teriam “salvo” o país do “comunismo”. Esta ideia que o historiador defende é a mesma que legitimou o golpe civil-militar. Quero enfatizar que há acadêmicos que discordam veementemente deste tipo de argumentação, como Caio Navarro de Toledo, Rafael Fantinel Lameira e Diorge Alceno Konrad (link para os artigos, respectivamente, aqui e aqui). Caio Navarro de Toledo inclusive chama Villa de revisionista. Segundo estes autores, as esquerdas não eram golpistas, e estavam apenas fazendo reivindicações dentro do sistema democrático. O que teria ocorrido no pré-golpe foi uma radicalização da democracia, que não foi vista com bons olhos pelos setores mais à direita da sociedade.

Como foi exposto acima, trata-se de um debate de ideias, e não uma verdade que as esquerdas tentam esconder, ou algo parecido. Espero que o filme mostre os dois lados da moeda, mas duvido muito. Se escolheram o Marco Antonio Villa como historiador para legitimar o discurso do filme, duvido que mostrem as críticas ao posicionamento dele. Pela escolha das falas do trailer, será bem unilateral.

Aqui vão os links das 3 partes de uma entrevista que Daniel Moreno deu para a Veja:

Parte 1 | Parte 2 | Parte 3

Quero fazer alguns breves comentários sobre esta entrevista.

Na primeira parte da entrevista, logo no fim, Moreno nos brinda com uma pérola típica do pensamento de direita sobre algo que vai ser discutido no filme. A impossibilidade de defender a democracia no Brasil e apoiar a ditadura em Cuba. Ora, contextos diferentes, processos históricos diferentes e resultados diferentes. Eu defender a democracia no Brasil, por exemplo, não me impede de maneira alguma de elogiar os aspectos positivos da ilha e criticar os aspectos negativos. Cuba ter a melhor medicina do planeta aparentemente não serve como argumento.

Aos 2 mins e 25 segs, mais ou menos, da segunda parte da entrevista, Moreno afirma categoricamente que as esquerdas do período não queriam democracia representativa, “não queriam nada disso”, e que a “a verdade histórica mostra isso pra gente”. Alguém, por favor, me explica o que vem a ser a verdade histórica pra este cidadão? Repito: é um DEBATE em aberto. Existem pessoas com variadas opiniões sobre o tema, e o filme aparentemente aborda apenas uma visão.

Perto dos 3 minutos e 15 segundos da terceira parte da entrevista, o diretor comenta que “no Brasil você tem sempre que estar trabalhando para alguém”, no sentido de a serviço de alguém. A serviço não, mas que todo mundo toma partido de alguma coisa, toma, inclusive cineasta. Só falta dizer que o filme é neutro e apolítico.

Após todos estes comentários, é impossível não relacionar o documentário com questões recentíssimas como o processo eleitoral de 2010. O filme não será lançado agora em 2010 por acaso. É evidente a tentativa de esquentar o debate em relação ao passado de luta contra a ditadura de Dilma Houssef. A última fala de Marco Antonio Villa no trailer, referindo-se aos grupos “extremistas”, é: “Então imagine um desses grupos tomando o poder… eu, por exemplo, não poderia estar falando agora.” Ora, é fácil ligar este discurso ao processo eleitoral. Seguindo esta lógica, quem iria querer uma “guerrilheira” no poder? Olho vivo também no Programa Nacional de Direitos Humanos, que sofreu fortes críticas no final do ano passado e rendeu debates no início deste ano, e na Lei da Anistia. Falaremos destas questões em outras oportunidades, mas com certeza este ano de campanha eleitoral e de intenso debate político vai render discussões bastante acaloradas sobre tudo o que foi dito acima.

É importante salientar que o documentário está sendo divulgado por sites e blogs de direita, como este da “União Nacional Republicana” e o site “A verdade sufocada” (que dá título ao livro do torturador Brilhante Ustra), que defende a ditadura.

Este é um blog voltado para o século XXI e sua historicidade.

Reinventando o Presente pretende dialogar com o passado para lançar luz sobre as principais questões do mundo contemporâneo, do local ao global.

Somos um grupo de historiadores preocupados em realizar diálogos com as demais ciências humanas e com o escasso diálogo entre universidade e sociedade, que tem como uma de suas nefastas consequências a falta de estímulo à participação nos diferentes processos políticos da contemporaneidade. Neste espaço, queremos ampliar tal diálogo, através da produção de conhecimento e da emissão de opiniões calcadas na historicidade das diferentes questões abordadas. O formato blog facilita a difusão das ideias propostas em cada escrito.

Lei da Anistia, governo Yeda, mídia internacional, questão energética no Brasil, regulamentação da profissão do historiador, vínculos entre universidade e sociedade, eleições de 2010, questões referentes à cultura em geral. Estes são exemplos de temas que abordaremos, partindo do princípio de que o historiador deve participar mais destes debates. Pensamos que os historiadores,  em grande parte, não se engajam e não discutem questões atuais com tanta frequência quanto seus pares de outras áreas, como as Ciências Sociais, por exemplo. Quando o fazem, a rigidez acadêmica ofusca a capacidade de analisar o presente historicamente, e o debate, por vezes, acaba tornando-se fechado e codificado.

A intenção é que os escritos daqui permaneçam no limiar entre a formalidade acadêmica e a informalidade da blogosfera.

Os textos aqui postados são de livre reprodução, desde que citado o(a) autor(a). Comentários que suscitem o debate crítico sobre o que escrevemos seriam muito produtivos.

Reinventando o Presente é um blog que tenta compreender melhor e sistematizar questões sobre o mundo contemporâneo. Aqui, se reinventamos e reorganizamos o presente, é para, acima de tudo, transformarmos o futuro.